Por que os Escritórios de Conceito Aberto Não Funcionam?



Eles são cool, mindblowing, hipsters, empowering, neutral, gender-free, latex-free, gluten-free, lactose-free... Eles são desejados, são almejados, são sonhados, são planejados. Toda empresa sonha em ter o seu, se já não o tem. Mas o que é ele? É o open-plan concept office, ou, ambiente corporativo de conceito aberto. Basicamente, é uma laje, sem divisórias (a não ser aquelas que envolvem os banheiros e elevadores) onde se distribuem mesas, estações de trabalho, salas de reuniões, espaços de descompressão, café e até sala de jogos, sem paredes, sem divisórias (a não ser por aquelas de vidro, totalmente transparentes).


Na teoria é muito legal, torna o ambiente de trabalho mais "igualitário", acaba com as hierarquias onde os chefes, diretores e gerentes que ficam escondidos em salas, onde os setores ficam separados, onde os superiores tem as melhores vistas e a ralé fica virada para a parede, em salas fechadas e sem janelas. O escritório de conceito aberto acaba com tudo isso. Dá um ar de transparência, de honestidade, de leveza e também de modernidade, de dinamismo, jovialidade. Com base nessa teoria, acreditavam que esse tipo de espaço teria tudo para gerar mais bem-estar e aumentar a produtividade e a interação entre os funcionários das empresas. Só tem um problema: isso não deu certo.



As Origens...


O conceito aberto surgiu, na verdade, como uma forma de economizar. O fato de você não precisar de paredes para separar os setores economiza não somente nas divisórias em si, mas em revestimentos e acabamentos de piso, paredes, forros, instalações elétricas, iluminação, climatização e, é claro, nos serviços de execução, além de ser muito mais fácil se alterar o layout, por simplesmente mudando as mesas de lugar. Ele também reduz a seção de área mínima por pessoa em um ambiente corporativo, diminuindo a necessidade de uma área maior.


Entretanto, algumas empresas acharam interessante a idéia de se criar um ambiente mais igualitário, colaborativo e interativo, onde os gestores ficariam cara a cara com os seus coordenados, e os membros das equipes ficariam cara a cara entre si, aumentando a colaboração, a interação e a produtividade. Também acreditaram que, em um ambiente onde os funcionários poderiam ser mais 'vigiados', que eles se comportariam melhor e produziriam mais. Enganaram-se.


Diga adeus à concentração...


Quem trabalha na área de criação ou de análise sabe o quanto é sagrado poder se concentrar. É um momento onde o nosso cérebro está pensando em mil e uma coisas, solucionando problemas, onde qualquer distração pode ser fatal. Por esse motivo, os escritórios conceito aberto são um prato cheio para a distração: são caóticos, barulhentos, dinâmicos, movimentados, é gente andando e falando o tempo inteiro, tornando assim impossível de se concentrar.



Eles NÃO estimulam a interação!


Eu sei, parece mentira, mas não é. Um estudo de Harvarddescobriu que, pessoas que trabalham em escritórios de conceito aberto passam 73% menos tempo interagindo entre si, e 67% do tempo trocando e-mails e mensagens. A interação e a socialização exercem uma influência enorme na satisfação com o trabalho e no apoio social. Por isso é tão importante promover um espaço que promova a interação e a comunicação entre os funcionários, entretanto, o conceito aberto não é a forma mais indicada para isso, o melhor mesmo é fornecer espaços mais organizados e menos caóticos, corredores estreitos e cozinhas comunitárias.



Eles NÃO aumentam a produtividade!


Outra expectativa que não é atendida pelos escritórios de conceito aberto é a melhoria da produtividade. As empresas que aplicaram este conceito tinham certeza que o ambiente hype e aberto iria estimular a produtividade, mas pelo contrário. Como dissemos acima, eles são caóticos, barulhentos, dinâmicos e movimentados, são todos os ingredientes perfeitos para minar a produtividade. Se as pessoas não conseguem se concentrar, como produzir mais? Além disso, esse tipo de ambiente deixa as pessoas mais ansiosas e estressadas, outro fator que também contribui para a redução da produtividade.


Esse tipo de ambiente também não oferece um bom desempenho acústico e luminoso, que são dois dos quatro pilares do conforto ambiental (térmica, acústica, iluminação e ergonomia). E outro estudo ainda sugere que, em ambientes onde as pessoas não conseguem se concentrar, elas se tornam menos comunicativas e até indiferentes com seus colegas.



Eles NÃO fazem as pessoas se sentirem bem!


Por mais jovial e cool que pareça, um ambiente onde você não consegue se concentrar, não estimula a interação, não tem como ser legal, concorda? Este estudo indica ainda que, lugares muito cheios de pessoas e com baixos níveis de privacidade provocam comportamentos defensivos nas pessoas e relacionamentos profissionais mais restritos.


Outras características espaciais desses ambientes, como as ilhas ou estações de trabalho, que geralmente ficam localizadas nos centros dos ambientes, deixando as costas das pessoas voltadas para a circulação ou para as janelas, fazem-nas sentir-se inseguras, desprotegidas e expostas. Racionalmente, você sabe que não corre perigo, mas o seu sistema nervoso não sabe. Por causa disso, ele libera o cortisol no seu sangue, um hormônio geralmente liberado em situações de extremo estresse, e que está relacionado ao aumento de peso, atrapalha o nosso sistema imunológico e causa doenças crônicas.



Eles são sexistas!


Parece um absurdo! Mas por incrível que pareça, é verdade! Em uma pesquisa recente, que estudou o comportamento de mais de 1000 funcionários de uma unidade no Reino Unido, que se mudaram de um escritório tradicional para um escritório de conceito aberto, descobriram que, nesses espaços abertos, as mulheres se sentiam como se estivessem em uma vitrine o tempo todo. Elas relataram que sentiam que suas aparências eram avaliadas constantemente, em vários escritórios, descobriram que os funcionários do sexo masculino faziam um ranking da aparência das funcionárias. Esse comportamento faziam as funcionárias evitarem frequentar alguns setores da empresa onde elas não eram esperadas.



Eles ajudam na proliferação de doenças infecciosas!


Sem barreiras, e com um ar-condicionado central, com partículas flutuando no ar de um lado para o outro, é fácil espalhar doenças em um ambiente de conceito aberto. As paredes e divisórias não servem apenas para promover a divisão do espaço, privacidade e acústica, mas também servem como um obstáculo para germes e vírus presentes em um ambientede circular para o outro.



Eles geram Poluição visual!


Não satisfeitos em remover as paredes, nesse tipo de escritório é comum vermos mobiliários em formatos diferentes perdidos em alguns espaços vazios, tapetes, paredes e móveis coloridos, tudo visualmente estimulante, além da quantidade de pessoas diferentes, com roupas diferentes e com objetos diferentes nas suas mesas, tudo à plena vista. Esses elementos juntos formam um ambiente muito poluido visualmente. A poluição visual causa efeitos devastadores no nosso psicológico, reduz muito a sensação de bem estar, a sensação de pertencimento e identidade com o lugar e estimula o vandalismo (imagina os efeitos da poluição visual nas cidades!).



Eles causam um MAL REAL para a sua saúde!


Como se não fosse o bastante, após citar todos os fatos acima, ainda temos mais essa: eles realmente representam um mal para a sua saúde. Tudo porque, geralmente nesses ambientes, os funcionários acabam trabalhando com multiplas tarefas, ou multitasking. Esse comportamento reduz a massa cinza cerebral, especialmente, da região do cérebro responsável pelo nosso controle cognitivo e a regulação das nossas emoções e motivações, reduz a capacidade da nossa memória de curto e longo prazo.


A Solução?


Abandonar de vez a idéia do conceito aberto e propor espaços mais humanos e dignos para as pessoas. Lembrar que, antes de mais nada, as pessoas precisam de concentração. Portanto, é imprescindível separar atividades mais barulhentas, como telemarketing ou atendimento ao cliente dos demais colaboradores. Se não quiser que todos os ambientes sejam fechados, use divisórias parcialmente fechadas, ou divisórias de vidro com película fosca ou leitosa. Use biombos para separar, ou painéis artísticos e interessantes, que além de separar os ambientes ainda criam um ponto focal interessante.


Garantir que as pessoas tenham seus espaços bem definidos e protegidos, não deixá-las expostas, viradas de costas para os outros ou para áreas de grande circulação. Garanta que elas possam ter suas costas protegidas e voltadas, ou próximas, a uma vista agradável. Se não houver a possibilidade de uma vista ou paisagem natural, crie-a, com quadros ou jardins.

Use soluções que promovam acústica, como revestimento de pisos acústicos, divisórias acústicas, forro acústicos.


E promova uma iluminação adequada posicionada acima de cada mesa, evitando a utilização de luminárias altas nos forros que geralmente exigem uma luz com maior intensidade, provocando o ofuscamento e dores de cabeça.


Para promover a interação, invista na área do cafezinho, aumente a cozinha, permita que as pessoas possam cozinhar (não há coisa melhor para unir as pessoas do que a comida!), crie pequenos espaços isolados para conversas e bate-papos, que podem ser usados até para uma reunião rápida ou para que as pessoas possam falar ao telefone com privacidade.


Não elimine os corredores! Aproveite para fazer uma sinalização interessante, criando uma identidade única para cada porta ou cada setor, use quadros de avisos ou permita pontos de interação entre as pessoas nos corredores.


E, acima de tudo, invista em um bom profissional para planejar o interior da sua empresa. Este profissional deve estar atualizado sobre as últimas descobertas sobre psicologia ambiental, neuroarquitetura, além de ter experiência com as normas regulamentadoras que definem padrões para o conforto térmico, acústico, luminoso e ergonômico. Não adianta contratar um escritório ou profissional da moda, que faz projetos lindos mas que não se atentam aos fatores citados aqui neste artigo. Investir em arquitetura é investir na saúde. Um ambiente saudável promove não só a saúde física dos seus usuários, mas também a saúde mental e psicológica (e reduz as contas no médico e na farmácia! Bom, não é?). E não faça esse investimento somente no seu trabalho, faça também na sua residência!


Priscila Bonifácio é arquiteta e urbanista, formada no UniCEUB em Brasília, com diploma reconhecido pela Universidade de Toronto, no Canadá, é especialista em Reabilitação Sustentável Ambiental Arquitetônica e Urbanística pela Universidade de Brasília, certificada em Preservação do Patrimônio Urbanístico de Brasília pelo IPHAN, tem 13 anos de experiência em REVIT, 6 anos de experiência em BIM, escreveu diversos artigos sobre arquitetura e BIM, divulgados em veículos como Archdaily e Autodesk.


Precisa de ajuda para melhorar a saúde física do seu ambiente corporativo?Entre em contato! priscila.bonifacio@gmail.com / contato@iezdesign.com / +5561 981622625 / www.iezdesign.com


Fontes:

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https://www.eurekalert.org/pub_releases/2018-05/aru-nom050118.php

https://www.psychologytoday.com/us/blog/the-squeaky-wheel/201606/10-real-risks-multitasking-mind-and-body

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